John Kachamila: Um Legado de Patriotismo e Dedicação a Moçambique

Maputo, 10 de julho de 2025 – Moçambique despediu-se recentemente de John William Kachamila, uma figura emblemática cuja vida foi marcada por um profundo amor pela pátria e uma trajetória de contribuições significativas para o desenvolvimento do país. Antigos presidentes da República, Joaquim Chissano, Armando Guebuza e Filipe Nyusi, uniram-se em homenagens póstumas, descrevendo Kachamila como um exemplo vivo de patriotismo, humildade e resiliência. Sua morte, no dia 3 de julho, no Hospital Central de Maputo, vítima de doença, deixou um vazio irreparável, mas também um legado que continua a inspirar gerações.

Um Patriota que Ensinava pelo Exemplo

John Kachamila, nascido em 30 de janeiro de 1946, no distrito de Lago, província do Niassa, foi muito mais do que um político ou um combatente da luta de libertação nacional. Para Joaquim Chissano, Kachamila era a personificação do patriotismo, alguém que “educava pelo exemplo”. “Podia-se dizer muita coisa sobre John Kachamila, mas o mais seguro é patriotismo, exemplo, educar por exemplo. Ouvimos muitas pessoas que o seguiram e viram nele um modelo, mesmo sem ele precisar falar”, destacou Chissano durante a cerimônia fúnebre realizada no Paços do Município de Maputo.

Filipe Nyusi, por sua vez, enfatizou a humildade e o respeito que caracterizavam Kachamila. “Se quisermos medir nosso grau de humildade, Kachamila é um espelho. Ele era respeitoso, o que lhe garantiu boas relações com colegas e uma simpatia generalizada”, afirmou Nyusi, descrevendo-o como um político “inteligente e silencioso”. Já Armando Guebuza reconheceu a resiliência de Kachamila, destacando sua capacidade de superar desafios e deixar uma marca indelével no país.

Uma Vida Dedicada à Nação

Kachamila juntou-se à Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) em 1963, aos 17 anos, movido pelo desejo de ver sua pátria livre do jugo colonial. Sua formação em Geologia e Minas, concluída na antiga Jugoslávia, onde viveu por uma década, foi um dos pilares de sua contribuição para o Moçambique independente. Como um dos primeiros geólogos moçambicanos, ele desempenhou papéis cruciais na estruturação do setor de recursos minerais, liderando projetos pioneiros de exploração mineira e produção de energia.

Entre os cargos que ocupou, destacam-se Chefe dos Serviços Geológicos Nacionais, Diretor Nacional de Geologia e Minas, Presidente da Comissão Nacional do Meio Ambiente, Ministro dos Recursos Minerais (1986-1994), Ministro dos Recursos Minerais e Energia (1994-2000) e Ministro para Coordenação da Ação Ambiental (2000-2004). Sua atuação foi marcada por uma visão estratégica e um compromisso com o equilíbrio entre exploração de recursos e preservação ambiental, uma questão ainda mais relevante nos dias atuais.

Além de sua carreira política, Kachamila era um contador de histórias e um defensor da preservação da memória moçambicana. Autor do livro Do Vale do Rift ao Sonho da Liberdade: Memórias de Lissungo, lançado em 2017 nos Estados Unidos, ele narrou sua trajetória pessoal, política e familiar, enfatizando a importância de registrar a história da luta de libertação. “Temos um princípio em Moçambique que diz que temos que contar a história da luta de libertação, porque se morrermos, a história também vai morrer”, declarou Kachamila em uma entrevista à Voz da América.

Um Homem de Paz e Visão

A cerimônia de despedida de Kachamila, realizada no dia 9 de julho, reuniu figuras proeminentes, incluindo o atual Presidente da República e todos os antigos Chefes de Estado. Castigo Langa, ex-Ministro dos Recursos Minerais e Energia, que trabalhou ao lado de Kachamila, destacou sua postura respeitosa e igualitária com todos os colaboradores, independentemente de suas posições.

Celmira Pena Da Silva, Secretária do Comité Central para Formação e Quadros da Frelimo, descreveu Kachamila como um “dirigente visionário, competente e convicto”. Seus filhos, em um depoimento emocionado, lembraram-no como um “comandante” e “guia”, um homem de “paz interior profunda” que acreditava na bondade e enfrentava a dor com dignidade. “A imagem que levo do papá é a de um homem que se manteve firme perante o inevitável, com a cabeça erguida e o sorriso caloroso”, afirmou seu filho mais novo.

Kachamila também deixou sua marca como empresário, sonhando em construir o hotel mais elegante de Metangula, no Niassa, um investimento que reflete seu desejo de retribuir à terra que o viu nascer. Sua esposa, Geórgia, naturalizada moçambicana, foi uma parceira constante em suas aspirações.

Um Chamado à Reflexão

A morte de John Kachamila ocorre em um momento em que Moçambique enfrenta desafios complexos, como a exploração sustentável de recursos naturais e a luta contra o terrorismo em Cabo Delgado. Em 2020, Kachamila defendeu a necessidade de uma coordenação internacional para combater o terrorismo, destacando que o problema não é isolado e exige solidariedade global. Ele também alertou contra a desinformação usada por grupos terroristas para desestabilizar governos, pedindo vigilância à população.

Seu legado, no entanto, vai além das questões políticas. Kachamila representa a essência do patriotismo moçambicano: um amor pelo país que se traduz em ações concretas, humildade e compromisso com o bem comum. Como destacou o governo moçambicano, sua perda é sentida não apenas por sua família, mas por toda a nação, em um momento em que sua sabedoria e visão são mais necessárias do que nunca.

Um Exemplo a Ser Seguido

John Kachamila não era apenas um homem de grandes feitos, mas alguém que, com sua simplicidade e dedicação, inspirou todos ao seu redor. Sua trajetória, do remoto Niassa às altas esferas do governo, é um testemunho de que a grandeza pode surgir das origens mais humildes. Moçambique despede-se de um patriota que, com ações e não apenas palavras, ajudou a construir um país mais forte e unido.

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Sobre o autor: Maimuna Carvalho
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